05-03-2026, 10:58 PM
(Este post foi modificado pela última vez em: 05-03-2026, 11:16 PM por tevito.)
Rosas vermelhas, violetas azuis...
Acho que seria legal ter aqui um tópico focado na discussão e compartilhamento de poemas e seus autores!
Você tem poetas favoritos? Algum poema em que tem pensado sobre recentemente? Escreve alguma coisa?
Conte aqui!
Vou inaugurar!
A minha assinatura (por enquanto) tem um poema que eu gosto muito, um epigrama em dísticos elegíacos atribuído a Meleagro e que se encontra no manuscrito apelidado Antologia Palatina, em tradução do Carlos de Jesus
Se amiúde queimas uma alma que esvoaça à tua volta,
Eros, ela foge – também tem asas, mesquinho.
Esses dias tenho pensado muito num de Ricardo Reis (Fernando Pessoa):
Quando, Lídia, vier o nosso Outono
Com o Inverno que há nele, reservemos
Um pensamento, não para a futura
Primavera, que é de outrem,
Nem para o Estio, de quem somos mortos,
Senão para o que fica do que passa —
O amarelo actual que as folhas vivem
E as torna diferentes.
E, pra finalizar e não dizerem que só gosto de coisa velha, gosto bastante de um de versos brancos da Ana Cristina César (minha musa da poesia marginal!):
Samba-canção
Tantos poemas que perdi.
Tantos que ouvi, de graça,
pelo telefone – taí,
eu fiz tudo pra você gostar,
fui mulher vulgar,
meia-bruxa, meia-fera,
risinho modernista
arranhando na garganta,
malandra, bicha,
bem viada, vândala,
talvez maquiavélica,
e um dia emburrei-me,
vali-me de mesuras
(era comércio, avara,
embora um pouco burra,
porque inteligente me punha
logo rubra, ou ao contrário, cara
pálida que desconhece
o próprio cor-de-rosa,
e tantas fiz, talvez
querendo a glória, a outra
cena à luz de spots,
talvez apenas teu carinho,
mas tantas, tantas fiz…
τὴν περιφρυγομένην ψυχὴν ἂν πολλάκι καίῃς,
φεύξετ᾽, Ἔρως: καὐτή, σχέτλι᾽, ἔχει πτέρυγας.
Se amiúde queimas uma alma que esvoaça à tua volta,
Eros, ela foge – também tem asas, mesquinho.
serei honesto: poesia nunca foi meu forte. já escrevi, já li, e já estudei. mas é difícil de me pegar. ainda sim, admito que tenho uma queda pelo romantismo. em especial, a segunda e terceira geração de romantismo no Brasil (e também, meu conhecimento de poesia é limitado a isso haha). vou compartilhar um poema do Álvares de Azevedo aqui a teu pedido:
SE EU MORRESSE AMANHÃ
Se eu morresse amanhã, viria ao menos
Fechar meus olhos minha triste irmã;
Minha mãe de saudades morreria
Se eu morresse amanhã!
Quanta glória pressinto em meu futuro!
Que aurora de porvir e que amanhã!
Eu perdera chorando essas coroas
Se eu morresse amanhã!
Que sol! que céu azul! que doce n'alva
Acorda a natureza mais louçã!
Não me batera tanto amor no peito
Se eu morresse amanhã!
Mas essa dor da vida que devora
A ânsia de glória, o doloroso afã...
A dor no peito emudecera ao menos
Se eu morresse amanhã!
real life and postcard views
Não sou muito de ler poesias, porém atualmente estou lendo A Divina Comédia de Dante Alighieri. A leitura está sendo meio complicada por conta da maneira que a obra é escrita, apesar disso estou gostando da historia até o momento.
(06-03-2026, 03:14 PM)Kromick Escreveu: Não sou muito de ler poesias, porém atualmente estou lendo A Divina Comédia de Dante Alighieri. A leitura está sendo meio complicada por conta da maneira que a obra é escrita, apesar disso estou gostando da historia até o momento.
Mentira??? Aaah!!!!
Foi uma obsessão enorme minha quando menor, originada pela minha obsessão anterior por Over the Garden Wall (que é basicamente uma ótima adaptação da estrutura narrativa do inferno dantesco).
Qual tradução você tá lendo?
Sei que tem um canal no youtube chamado Pausa Para um Café, que tem uma playlist de vídeos visitando e comentado o livro a cada X cantos (não lembro quantos). Acho essa uma abordagem ótima pra leitura guiada, e me ajudou muito na época.
τὴν περιφρυγομένην ψυχὴν ἂν πολλάκι καίῃς,
φεύξετ᾽, Ἔρως: καὐτή, σχέτλι᾽, ἔχει πτέρυγας.
Se amiúde queimas uma alma que esvoaça à tua volta,
Eros, ela foge – também tem asas, mesquinho.
vocês acham que poesia traduzida tem seu próprio mérito ou a única forma de realmente ler e aproveitar o poema é no seu idioma original somente?
real life and postcard views
07-03-2026, 03:37 PM
(Este post foi modificado pela última vez em: 07-03-2026, 03:38 PM por tevito.)
(07-03-2026, 12:42 PM)GioCk Escreveu: vocês acham que poesia traduzida tem seu próprio mérito ou a única forma de realmente ler e aproveitar o poema é no seu idioma original somente?
Nuh!
Você pegou numa polêmica grande no meio das letras.
A tradução é muito importante e tem um mérito grande, até porque o processo de uma boa tradução é muito árduo. Mas, infelizmente, ela sempre vai inferir uma perda e mudança do material que tá sendo transportado.
Algumas pessoas (inclusive professores cujas aulas eu já assisti) dizem coisa do tipo 'quem nunca leu a Ilíada em grego, não conhece Homero' -- eu acho isso uma idiotice gigante. Mesmo se a maior parte dos aspectos formais se pulverizem diante duma tradução, e vez ou outra o nível semântico também tropeça com ambiguidades ou encaixes imperfeitos, ainda assim dá pra se conhecer bem dos motivos, símbolo etc. etc., o que já é bem melhor que ter nenhum contato at all!
τὴν περιφρυγομένην ψυχὴν ἂν πολλάκι καίῃς,
φεύξετ᾽, Ἔρως: καὐτή, σχέτλι᾽, ἔχει πτέρυγας.
Se amiúde queimas uma alma que esvoaça à tua volta,
Eros, ela foge – também tem asas, mesquinho.
(06-03-2026, 07:10 PM)tevito Escreveu: (06-03-2026, 03:14 PM)Kromick Escreveu: Não sou muito de ler poesias, porém atualmente estou lendo A Divina Comédia de Dante Alighieri. A leitura está sendo meio complicada por conta da maneira que a obra é escrita, apesar disso estou gostando da historia até o momento.
Qual tradução você tá lendo?
Sei que tem um canal no youtube chamado Pausa Para um Café, que tem uma playlist de vídeos visitando e comentado o livro a cada X cantos (não lembro quantos). Acho essa uma abordagem ótima pra leitura guiada, e me ajudou muito na época.
A edição que eu tenho aqui em casa é a do clube de literatura clássica, com a tradução de J.P Xavier Pinheiro. Essa edição é linda de mais, capa dura, com todos os três livros em um só, e o principal diferencial dela é que antes de cada canto, tem um resumo do que acontece nele, isso ajuda muito a não se perder na história.
23-03-2026, 04:56 PM
(Este post foi modificado pela última vez em: 23-03-2026, 05:27 PM por lonzcore.)
Eu não sei necas de pitibiribas sobre poética. Estou removido de qualquer discurso ou conhecimento teórico sobre a arte. @ tevito tens alguma recomendação de material acadêmico, artigo ou ensaio que dê uma boa introdução?
Isso não quer dizer que eu não aprecio um bom poema, muito pelo contrário. Tem esse do Richard Brautigan que eu gosto muito, e que aparece volta e meia em discussões sobre ecologia maquínica.
All Watched Over By Machines of Loving Grace
I like to think (and
the sooner the better!)
of a cybernetic meadow
where mammals and computers
live together in mutually
programming harmony
like pure water
touching clear sky.
I like to think
(right now, please!)
of a cybernetic forest
filled with pines and electronics
where deer stroll peacefully
past computers
as if they were flowers
with spinning blossoms.
I like to think
(it has to be!)
of a cybernetic ecology
where we are free of our labors
and joined back to nature,
returned to our mammal
brothers and sisters,
and all watched over
by machines of loving grace.
___
Eu gosto desse poema porque ele é muito evocativo. O Brautigan pinta uma imagem na sua cabeça, um mundo esplendoroso e bucólico formado através da relação harmoniosa entre humanidade, natureza e tecnologia. Considere que esse poema foi escrito ali em volta de 1960, quando a computação, a cibernética, eram novidades revolucionárias que muitas pessoas viam com muito otimismo -- um sentimento muito similar, se não idêntico, àquele expresso por alguns grupos durante o advento da Internet e, hoje em dia, a IA. O pulo do gato, pra mim, é que o autor traz esse otimismo aliado a um compromisso com a ecologia e com o bem-estar da humanidade a partir da libertação do trabalho. A tecnologia surge para despir a humanidade do seu uniforme de trabalho e reinserí-la junto às matas, bosques e pradarias com o resto da Criação. Uma espécie de pré-milenarismo tecnológico. Talvez não seja uma utopia possível ou inteiramente desejável, mas é um horizonte de possibilidade que parece perdido. É muito difícil discutir o avanço tecnológico hoje em dia sem pensar no estrago absurdo (e crescente) que infligimos em nós mesmos e no mundo ao redor nessa busca pelo próximo boi de silício. Tecnologia avançada, sozinha, não irá nos salvar.
E digo mais!
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